Família
A família, como se sabe, é um fato social, sendo assim não pode ser restringida como uma instituição de âmbito jurídico. A visão contemporânea ocidental de família esta exposta desta forma e entra em conflito com a minha vivencia enquanto criança.
Familia eram meus pais, avós, avôs, a esposa de meu avô que era minha avó por afeto, as filhas de meu avô que eram minhas tias ainda que uma delas não fosse filha consaguinea, meus tios e tias, os cônjuges desses que eu chamava de tios e tias e os reconhecia como tal, os primos e primas não importava quem era consanguíneo ou adotado, as pessoas que me cuidavam, pois minha mãe trabalhava fora, eram também tias minhas, ainda que saíssem do trabalho enquanto domesticas sempre iam me visitar ou me ligava ou eu ia na casa delas. A vizinhança era extensão da minha casa. Qualquer pessoa mais velha que frequentasse minha casa com certa constância era considerado tio ou tia, primos e primas e eramos todos tão parceiros que quando chegava são joão eu ia com meus pais para a casa dos primos de minha irmã não consanguíneo e outros parentes não consanguíneos passar estas festas juntos no interior. Festas estas que aconteciam anualmente e era chamada de festa de família. Todos que estavam presentes não questionavam esse titulo e não importava quem era consanguíneo ou não, atingiu um - atingiu todos. Ali estava uma comunidade. Ali era uma família.
Fui envelhecendo e sem perceber fui me distanciando cada vez mais desta constituição de comunidade e família. Meus pais também foram se distanciando. Sem justificativa e de forma gradual fomos internalizando cada vez mais, o conceito contemporâneo ocidental. Restringindo o circulo para a família consanguíneo. O sentimento de comunidade foi se dissolvendo, de repente cada um tava com a vida tão corrida que aqueles encontros se tornavam difíceis. Ainda tentei algumas vezes com meus amigos-irmãos tirar um dia para papear, nos colocar a par da vida um dos outros e jogar cartas, tal qual fazíamos anos atras. Marcamos e não foi possível. cada um com seus compromissos "familiares" ou profissionais.
Sou tia. Quando me dei conta de que sou tia. a unica irmã de meu irmão, segundo a definição corrente, passei a questionar e me preocupar com a minha sobrinha. Moramos em municípios diferentes, a maioria das nossas conversas se dá por vídeo. Quando apareço, minha sobrinha consanguíneo me ver como uma estranha. Ela só tem 3 anos. em algum momento sera diferente? Meu avô, bisavô dela, mora em frente a sua casa, eles passam meses sem se ver.
A convivência entre netos e bisavós (ôs) é comprovada pela ciência ocidental como algo que melhora a saúde física e mental do idoso, auxiliando-o a se manter mais ativo, ao mesmo tempo que a convivência ensina a criança que aquele ser tem um ritmo diferente do dela e a paciência se faz necessário. O capitalismo, o individualismo, a busca desenfreada pelo lucro tem diluído progressivamente esta relação, e a que preço? pagamos com a nossa saúde mental, com a solidão, depressão e com a constante sensação de que somos consumidores que trabalha para consumir e consome para trabalhar.
Quais os reflexos de uma vida pensada dessa forma? Outro dia, me senti tão sozinha que baixei um aplicativo chamado ombro amigo, recebi conselhos maravilhosos. quando fechei o aplicativo me perguntei quando deixei de correr para os braços da minha comunidade, daqueles que eu amava e amo para buscar auxilio com um estranho em uma realidade virtual?
Pesquiso agora sobre o conceito de família afro e indígena. Acredito que esta busca por pertencimento que venho vivenciando seja fruto da minha avó índia e do meu avô negro. Acredito que por isso tanta gente se encanta com o candomblé e esse respeito que se tem pelos ascendentes, tratamento também dispensado pelas comunidades indígenas brasileiras e latinas.
Tenho dificuldade de adotar o lema capitalista do descarte o velho e aposte no novo, isso pode ate ser útil nas empresas. não acredito que eu seja uma empresa, apesar de muitos livros de auto-ajuda venha afirmar isso. Creio que sou um individuo fruto de uma ancestralidade a qual eu devo a cada momento e cada instante da minha vida. Todas as coisas que sou e as que sonho ser passaram por lutas, lagrimas e sofrimentos dos meus ancestrais possibilitando que aqui estivesse hoje. O compromisso com meus descendentes e ascendentes é moral e ético, me oferece um norte na vida e mantem em mim o desejo pulsante de viver, apesar de todas as dificuldades que a vida impõe. Não tenho filhos e não acredito que os terei, meus filhos são todos aqueles que me buscam e os (as) quais acolho.
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